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Tribuna de Nobres

21/09/2019
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Dias de ontem e dias de hoje

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"Considerado o maior erro judiciário do Brasil. Aconteceu na cidade mineira de Araguari, em 1937. Os irmãos Naves (Sebastião, de 32 anos de idade, e Joaquim, contando 25), eram simplórios trabalhadores que compravam e vendiam cereais e outros bens de consumo.
Joaquim Naves era sócio de Benedito Caetano. Este comprara, com auxílio material de seu pai, grande quantidade de arroz, trazendo-o para Araguari, onde, preocupado com a crescente queda dos preços, vende o carregamento por expressiva quantia.
Na madrugada de 29 de novembro de 1937, Benedito desaparece de Araguari, levando consigo o dinheiro da venda do arroz. Os irm√£os Naves, constatando o desaparecimento, e sabedores de que Benedito portava grande import√Ęncia em dinheiro, comunicam o fato √† Pol√≠cia, que imediatamente inicia as investiga√ß√Ķes.
O caso √© adrede atribu√≠do ao Delegado de Pol√≠cia Francisco Vieira dos Santos, personagem sinistro e marcado para ser o principal causador do mais vergonhoso e conhecido erro judici√°rio da hist√≥ria brasileira. Militar determinado e austero (Tenente), o Delegado inicia as investiga√ß√Ķes e n√£o demora a formular a sua convic√ß√£o de que os irm√£os Naves seriam os respons√°veis pela morte de Benedito.
A partir de então inicia-se uma trágica, prolongada e repugnante trajetória na vida de Sebastião e Joaquim Naves, e de seus familiares.
Submetidos a torturas as mais cruéis possíveis, alojados de modo abjeto e sórdido na cela da Delegacia, privados de alimentação e visitas, os irmãos Naves resistiram até o esgotamento de suas forças físicas e morais. Primeiro Joaquim, depois Sebastião". Esta narrativa é de Rogério Schietti Machado Cruz, Promotor de Justiça do MPDFT.
No domingo passado, 05 de janeiro de 2014, a TV Record levantou a quest√£o dos erros judiciais e das pris√Ķes de pessoas inocentes que quase nunca conseguem se ressarcir dos danos morais causados pelas pris√Ķes ilegais, tal e qual aquela, ocorrida em 1937, segundo narra Rog√©rio Schietti: "O caso √© adrede atribu√≠do ao Delegado de Pol√≠cia Francisco Vieira dos Santos, personagem sinistro e marcado para ser o principal causador do mais vergonhoso e conhecido erro judici√°rio da hist√≥ria brasileira. Militar determinado e austero (Tenente), o Delegado inicia as investiga√ß√Ķes e n√£o demora a formular a sua convic√ß√£o de que os irm√£os Naves seriam os respons√°veis pela morte de Benedito".
Rep√≥rteres da TV Record, da revista eletr√īnica Domingo Espetacular, entrevistaram v√°rias v√≠timas de pris√Ķes injustas que ainda hoje respondem por crimes que n√£o cometeram por conta de falsifica√ß√Ķes de documentos ou por equ√≠vocos policiais na lavratura dos famosos B.O's (Boletim de Ocorr√™ncia). √Č mais f√°cil facilitar o caso e impingir culpa em algu√©m a ter que fiscalizar crimes sem os recursos t√©cnicos devidos.
Em Cuiabá, nos anos 60, estabeleceu-se uma lenda em torno de um vaqueiro, homem do campo, sob a alcunha de Mané Boiadeiro, procurado pela polícia por fábulas contadas a seu respeito. Um senhor, cujo nome nos foge da memória, dado a realizar serviços de frete em seu velho caminhão, deu carona a um sujeito e quando atingia um certo trecho da região do Coxipó, supostamente, onde se denominava "Quebra Pote", foi abordado e teve o carro metralhado, causando a morte do caroneiro.
Isso √© quase uma f√°bula cuiabana daqueles anos passados, quando a PM desfilou pelas ruas centrais da modesta Cuiab√° daquele ido per√≠odo com o suposto "Man√© Boiadeiro" morto. A caminhonete, tipo F-100, carregava na carroceria um morto por engano, entregue ap√≥s ao √ļnico necrot√©rio da cidade, √† avenida General Valle, num anexo da Santa Casa de Miseric√≥rdia.
Então, ser preso por engano neste Brasil com resquícios colonialistas ainda é possível, mesmo com todos os recursos técnicos disponíveis, em determinados lugares não se realiza prova de balística, exames residuográficos e nem se preserva o local do crime, passando a valer o que está escrito no papel por aquele que está de plantão.
Isso aqui não passa de algumas palavras simplórias perto da realidade cruel retratada pelo Domingo Espetacular, em alguns casos, com a mesma semelhança do ocorrido em 1937 com os irmãos Naves.
Na contramão dos fatos, após levantamentos detalhados de tudo o que ocorreu, tidos como verídicos, algumas eminências pardas da política brasileira ainda se dizem vítimas de um escandaloso e rumoroso caso, o Mensalão e aludem inocência.
A inocência neste novo Brasil velho é conquistada por dinheiro e poder, o resto é o que vemos por aí, inclusive com palavras ditas por um ministro, da Justiça, diga-se de passagem, de que é preferivelmente morrer que ir parar numa prisão brasileira. Em Pedrinhas, no Maranhão, mesmo que não se queira a "justiça" por lá é feita dentro do presídio.
Tudo leva a crer que ainda estejamos emperrados no ano de 1937, mesmo estando em 2014, num país onde um surdo-mudo é morto numa abordagem policial naquilo que se considerou como sendo uma fatalidade.
Este, não teve o direito de ir preso, mesmo por engano ou por suas deficiências físicas, mas já se fez "justiça" rapidamente.
"Após cumprirem 8 anos e 3 meses de pena, os irmãos Sebastião e Joaquim, ante comportamento prisional exemplar, obtêm livramento condicional, em agosto de 1946.
Joaquim Naves falece, como indigente, após longa e penosa doença, em 28 de agosto de 1948, em um asilo de Araguari. Antes dele, em maio do mesmo ano, morria em Belo Horizonte seu maior algoz, o tenente Francisco Vieira dos Santos", diz o relato do Rogério Schietti Machado Cruz, Promotor de Justiça do MPDFT.
E assim vamos vivendo, feitos passarinhos em mãos de crianças...

 

Trincheira LV

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